Recrutadoras especializadas em inclusão racial ganham espaço entre múltis

Autor: Letícia Arcoverde Data da postagem: 10:36 27/06/2017
Imagem: CEERT

O racismo que impede uma maior participação de negros em grandes empresas do Brasil se manifesta de diversas formas no contexto corporativo, da dificuldade que RHs em maioria brancos têm para acessar redes de contatos mais diversas a preconceitos que tornam a presença de afrodescendentes mais rara na medida em que se sobe na hierarquia

A discussão hoje está, ao menos, mais presente em um meio que por muito tempo considerou diversidade apenas um problema de gênero. Consultorias em inclusão étnico­racial estão ganhando espaço no mercado, atuando com treinamentos e bancos de talentos.

Criada há dois meses, a startup Protagonizo surgiu do trabalho da exconsulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, que desde que se mudou para o país há cinco anos vem atuando como palestrante e consultora em diversidade. Chegar ao país com status diplomático, conta ela, a fez enxergar a força do racismo aqui. "Há muita dificuldade das pessoas enxergarem uma negra em um espaço de liderança e poder."

Ao fazer palestras em grandes companhias, Alexandra percebeu interesse de CEOs em promover igualdade racial. "Mas eles não enxergam o racismo institucional que sobrevive nos RHs, que são 'monocromos' brancos", diz. Se um dos principais problemas que ela ouvia dos gestores era a dificuldade de encontrar profissionais negros qualificados no LinkedIn, sua solução foi criar a própria rede.

Além de oferecer consultoria em programas de diversidade, a Protagonizo coletou dois mil currículos de profissionais negros formados em universidades renomadas no Brasil e exterior, com fluência em pelo menos um segundo idioma. Um aplicativo será lançado para ser usado por candidatos e recrutadores, e em outubro a startup vai promover uma feira de carreiras em São Paulo. Outra iniciativa é um programa de mentoria, dentro do qual qualquer profissional de alto escalão, coach ou investidor pode ser mentor.

Segundo Alexandra, as companhias que buscam seus serviços são, em maioria, múltis estrangeiras que já têm programas de inclusão e participam de redes sobre o assunto, mas ainda restringem as ações à diversidade de gênero. "Os RHs falam sobre diversidade, mas entendem só desse recorte", diz.

Uma pesquisa do Instituto Ethos do ano passado com 117 das maiores empresas do Brasil apontou que o funil que limita a presença de negros dentro das companhias começa cedo. Afrodescendentes são 58% dos aprendizes e 58% dos trainees, mas 29% dos estagiários. No quadro funcional, sem cargos de liderança, são 36% do total. Em postos de gestão a discrepância é maior ­ negros são 26% dos supervisores, 6% dos gerentes, 5% dos executivos e 5% das cadeiras em conselhos. Entre mulheres, a situação é mais desigual, com apenas 11% de participação no quadro funcional e 0,4% entre executivos. Em 2014, segundo o IGBE, 53% da população se declarou preta ou parda.

A preocupação com esses dados, no entanto, ainda quase não chega a empresas nacionais. Fundadora da EmpregueAfro, Patrícia Santos diz que 90% das empresas que buscam seus serviços são americanas, onde há negros no alto escalão. "Quando eles visitam o Brasil, não entendem como 50% da população é negra mas não é representada na empresa, e começam a fazer pressão."

Fundada em 2004, a EmpregueAfro tem uma metodologia que inclui treinamento dos profissionais de RH, processo de conscientização do tema e a definição de metas. "O recrutador tem que ser o maior aliado no processo de inclusão", diz. Alguns elementos promovidos pela consultoria são treinamentos de preconceitos inconscientes, para alertá­los de estereótipos racistas que atrapalham a seleção.

Profissional de RH há quase duas décadas, Patrícia percebeu já como estagiária que não via negros em processos seletivos. Sua atuação para reverter esse quadro começou com palestras para estudantes, dando dicas para entrevistas e currículos. "A sociedade nos deixa a margem dessas oportunidades. Eu via estudantes que não tinham coragem de se candidatar porque não se viam no site da empresa, na propaganda. A pessoa não se sente apta a concorrer à vaga porque não se enxerga nela", diz. A EmpregueAfro também possui um banco com cerca de três mil currículos.